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Pontuar? Depende do gênero, do leitor...

Use diferentes textos e revele as diversas possibilidades que os sinais gráficos oferecem

fonte: abril.com.br
Paola Gentile (pagentile@abril.com.br)


Separar frases com vírgulas pode? E terminar uma oração interrogativa com reticências? Ao criar um texto — e também ao corrigi-lo —, todo mundo enfrenta dúvidas desse tipo. Mas talvez não seja o caso de se angustiar tanto diante das incertezas. Afinal, os linguistas garantem: em pontuação, não existe certo ou errado. Só o "depende"... Depende da intenção do autor, do gênero do texto, do leitor que se quer alcançar. Os sinais que tanto atormentam estudantes (e mestres) nada mais são do que formas gráficas de atribuir significado e dar coesão ao que criamos, garantindo que a mensagem será entendida. Com as mesmas palavras, na mesma sequência, conseguem-se diferentes sentidos. Duvida? Faça o teste abaixo.






TESTE

Que pontuação usar? Para provar que existem diversas possibilidades, preparamos um teste. Quantas formas você encontra para pontuar a frase abaixo?




Meu relógio sumiu não está na gaveta Você pode considerá-la como um diálogo ou a reflexão de uma só pessoa. Só não pode mudar a ordem das palavras. Veja na página seguinte algumas das respostas possíveis, com a interpretação de cada uma.




Aqui, algumas respostas para o teste anterior

— Meu relógio sumiu. Não está na gaveta!

Afirmação e constatação indignada de quem fala




— Meu relógio sumiu?

— Não está na gaveta?

Diálogo com questão em dúvida e resposta em réplica




— Meu relógio sumiu não, está na gaveta.

Negação do sumiço do objeto e afirmação do local onde o objeto se encontra




— Meu relógio sumiu?

Não está na gaveta?

Dúvida do narrador e um princípio de desespero pela situação




— Meu relógio sumiu?

— Não, está na gaveta!

Dúvida na questão e certeza na resposta




Meu relógio sumiu...

Não está na gaveta...

Reflexão do personagem, pode ser que ele esteja pensando em outra possibilidade...




— Meu relógio sumiu, não?

— Está na gaveta!

Dúvida na pergunta e certa rispidez na resposta









Esqueça as pausas

Guiar o aluno na construção das habilidades de pontuar e de interpretar textos diferentes não é simples. Alguns colegas, porém, encontraram um caminho de sucesso: trabalhar a análise de gêneros. Comparando contos policiais com reportagens, romances com ficção científica e biografias, é possível ensinar as diversas possibilidades do uso desses sinais.




Antes de adotar tal metodologia é preciso derrubar algumas barreiras. A primeira: a ligação que alguns estudiosos fazem entre pontuação e pausa. "Escrita e fala são regidas por sistemas completamente diferentes", alerta Veronique Dahlet, professora do Departamento de Letras Modernas da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo.




Esse equívoco tem origem histórica. No tempo em que se escrevia sem espaço entre as palavras, era preciso ler em voz alta para dar sentido ao que estava no papel. As primeiras marcações apareceram para determinar pausas de respiração, mas já tinham a preocupação de evitar a perda do sentido (veja o quadro abaixo).












Tão antiga quanto a escrita

A pontuação é um sistema de sinais visíveis, criado nos primórdios da escrita para ajudar na leitura. Antigamente, escrevia-se sem separar as palavras — e era difícil distinguir os conjuntos que formavam uma idéia. A leitura em voz alta era essencial para se perceber o sentido do que estava escrito. Nos séculos 4 e 3 a.C., alguns pergaminhos traziam pontos separando palavras, mas isso logo desapareceu. No século 2 a.C., Aristófanes de Bizâncio consolidou o alfabeto grego e introduziu o que se considera o primeiro sistema de pontuação: um ponto no alto indicava o fim de um grupo de palavras com significado completo; um ponto no meio da altura da letra mostrava que seria feito um acréscimo ao significado corrente; por fim, um ponto na base representava uma frase que se completaria adiante. Ler era difícil, poucos dominavam a técnica. A primeira revolução foi feita pelos sacerdotes da Igreja Católica com o codex, precursor do livro atual. Nos seminários, cada padre tinha um exemplar manuscrito da Bíblia. A récita em conjunto exigia sinais comuns que ajudavam a localizar a passagem estudada. Para diminuir o risco de erros, os copistas inventaram marcas. A mais comum era a maiúscula vermelha, de onde se originou o termo rubrica — de ruber, vermelho em latim. No século 8 d.C., quando a separação de palavras passou a ser feita com um espaço em branco, a pontuação adquiriu a função de separar unidades sintáticas, semânticas, discursivas e prosódicas maiores. Com o surgimento da imprensa, os editores impuseram uma padronização, mas a maioria dos autores não se preocupava com esses "sinais pequenos que parecem vermes", como teria dito o filósofo Voltaire no século 17. Em contrapartida, Victor Hugo, no século 19, travou brigas ferrenhas com seu editor belga, que teimava em acrescentar vírgulas a suas poesias. O francês Hervé Bazin, em meados do século passado, afirmou que os símbolos usados até então eram muito pobres para expressar os sentimentos e inventou uma série de sinais para cumprir essa função. Além do ensaio em que os lançou, ninguém jamais publicou um texto com tais marcações.









Veronique diz que, como os avanços da Lingüística desde os anos 1950 ainda não foram incorporados às gramáticas, ainda lemos que o ponto é sinônimo de pausa longa; a vírgula, de parada curta; a interrogação, de pergunta; e as reticências, de interrupção no pensamento. Por curiosidade, ela pesquisou em diversos tipos de textos com que intenção o autor colocava o ponto de interrogação. "Na maioria das vezes é para inserir o leitor na história", constata. Quer ver? Já viu. Aliás, ele só entrou neste texto para chamar sua atenção... Como essas reticências, que fazem refletir sobre o que acabou de ser escrito.

Evite frases isoladas

Além dessa visão antiga, outro obstáculo comum é propor exercícios com orações isoladas, fora de contexto. "Ninguém aprende decorando regras, vendo exemplos e treinando", afirma Kátia Lomba Brakling, autora dos Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa. Ela aconselha o uso da gramática só como forma de sistematizar constatações feitas pela própria turma a partir de histórias completas e curtas, como fábulas, contos e piadas.




Como as crianças demoram para incorporar a pontuação, os professores de alfabetização podem começar mostrando as "marquinhas". É o que faz Cinira Machado de Jesus com a 1a série do Colégio João Paulo I, em Feira de Santana, 115 quilômetros de Salvador. O trabalho começa quando as duplas de alunos anotam com lápis o que vêem "além das letras" nos contos de fadas. Assim, percebem os usos mais comuns nesse gênero. Muitos marcam acentos também. Cinira desfaz o equívoco quando lista e nomeia os sinais no quadro-negro. O exercício avança com histórias em quadrinhos, piadas e poemas.




A Escola Projeto Vida, em São Paulo, traçou um plano de olho nos interesses da garotada. Contos de mistério, de amor, de ficção científica, histórias policiais, crônicas, biografias, cartas, poesias, literatura de cordel, entrevistas, reportagens, ensaios, editoriais e monólogos são analisados da 1ª à 8ª série.




Elenice Rodrigues de Souza e Silva, professora de 5ª, 6ª e 7ª séries, usa esse sistema há três anos. Com um banco de textos divididos por estilo e atualizado permanentemente, ela recorre a ele para mostrar como se usam as aspas — em crônicas, reportagens ou romances — ou de que maneira as reticências podem ser empregadas. Ela privilegia a correção coletiva, ocasião em que os alunos expõem suas intenções ao escrever.

Caderno de lembrete

Marly de Souza Barbosa lança mão da mesma metodologia com a 4ª turma da suplência na Escola Municipal Antônio Carlos de Andrade e Silva, também na capital paulista. Com materiais mais elaborados, como os romances A Festa, de Ivan Ângelo, e A Ilha Desconhecida, do português José Saramago, ganhador do Nobel de Literatura, ela chama a atenção para a forma como os autores pontuam os diálogos. Com esse recurso, já ensinou diversos usos da vírgula, do travessão e de outros sinais. "Depois que comecei a trabalhar assim, meus alunos passaram a escrever melhor", afirma.




Para sistematizar as constatações feitas em sala de aula, sugira que a turma crie um caderno de lembretes e anote todas as novas possibilidades de emprego de cada um dos recursos (ponto, exclamação, travessão, ponto-e-vírgula etc.). "Isso dará autonomia na hora de decidir o que usar, quando usar e como usar", ressalta Kátia Brakling.




Língua Portuguesa
Tema: Pontuação

Objetivo: Reconhecer e saber usar esse recurso para dar coesão e significado ao texto. Distinguir sentidos em frases pontuadas de maneiras diferentes

Como chegar lá: Analise em classe como diversos autores organizam seus textos dentro dos diferentes gêneros. Peça para os alunos anotarem as constatações num caderno, que deve ser consultado sempre que houver dúvidas

Dica: Use a produção escrita, do estudante ou de escritores consagrados, como ponto de partida do estudo da pontuação, mesmo quando recorrer à gramática para a sistematização do conhecimento. Organize um arquivo com bons exemplos de diferentes gêneros e uma amostra significativa das diversas possibilidades de uso dos sinais







Quer saber mais?


Colégio João Paulo I, R. Dr. Sabino Silva, 437, CEP 44035-120, Feira de Santana, BA, tel. (75) 221-2804




Escola Municipal de Ensino Fundamental Antônio Carlos de Andrade e Silva, R. Baltazar Santana, 365, CEP 08040-420, São Paulo, SP, tel. (11) 6154-1899




Escola Projeto Vida, R. Valdemar Martins, 148, CEP 02535-000, São Paulo, SP, tel. (11) 6236-1425

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